Síndrome do regresso: o drama de voltar do intercâmbio

Após  experiência no exterior, voltar do intercâmbio pode ser difícil para muitas pessoas. A sensação é objeto de estudo e pode ser amenizada com dicas simples, confira!

Síndrome do regresso: o drama de voltar do intercâmbio
Sintomas mais comuns e dicas para ficar bem ao voltar do intercâmbio

Nos últimos anos, o número de brasileiros que fizeram intercâmbio – para estudar, aprender um novo idioma ou para trabalhar – cresceu muito. Segundo o Instituto de Educação Internacional, a quantidade de pessoas que buscam um período de experiência no exterior cresceu cinco vezes nos últimos 10 anos. Depois de viver essa experiência, chega a hora de voltar do intercâmbio. Após o período, que na maior parte das vezes compreende entre 6 meses e 1 ano, o brasileiro precisa abandonar a vida ao qual teve que se acostumar no exterior e voltar do intercâmbio para o país de origem. 

Muitas pessoas mencionam a “depressão pós- intercâmbio”, e para quem pensa que é uma bobagem, vale o alerta: o assunto é tão sério que já é objeto de estudo de psiquiatras e psicanalistas.

Síndrome do regresso

A depressão, dificuldade de se readaptar ou tristeza que abate o intercambista após o retorno ao país de origem é chamada de síndrome do regresso, termo cunhado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa para designar o “jet lag espiritual” sentido por muitas pessoas ao voltar pra casa. Segundo ele, quando o intercambista parte para o período de intercâmbio, está cheio de expectativas e planos sobre a vida no novo país. O período de adaptação à nova realidade no exterior varia de país para país, mas a média é de 6 meses. Já a readaptação ao país de origem demora em média 2 anos.

Por que é difícil readaptar?

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São inúmeras as respostas, e muitas delas são pessoais, pois cada pessoa que vive fora do país por algum tempo vive uma diversidade enorme de experiências que fazem do seu momento único, e o período de voltar do intercâmbio mais difícil. Mas os motivos mais comuns que geram a síndrome do regresso, são:

  • Sensação de que perdeu o bonde: quando você volta, muitas coisas aconteceram e você não estava lá. Perdeu novidades das vidas das pessoas próximas a você, a cidade que você morava mudou, muita gente passa a não reconhecer mais o seu território.  
  • A falta da novidade: quando você mora num país estrangeiro, tudo é novo. A língua é nova, a atitude das pessoas é diferente, as comidas são diferentes, tudo é novidade. Até uma mera ida ao mercado é algo mais divertido do que no Brasil, pois aqui já conhecemos tudo que lá encontramos: os produtos, as marcas, os preços. No exterior, conhecer tudo novo é uma experiência agradável e ela termina logo que chegamos por aqui.
  • Amigos de muitas nacionalidades: uma das reclamações mais comuns, é a saudade dos amigos feitos no período de intercâmbio. É comum ter a oportunidade de conhecer pessoas do mundo todo durante o período de intercâmbio e é uma realidade que a intensidade das relações é muito mais profunda quando ambos estão fora do seu país de origem. Em um dia, eram um desconhecidos, no outro são melhores amigos, viajam juntos, dividem experiências cotidianas e fazem laços de amizade muito fortes. A sensação de que pode nunca mais ver essas pessoas que foram tão importantes nesse período, aumenta a depressão pós-intercâmbio.
  • Adaptar à realidade brasileira: acostumar-se com o dia a dia do Brasil após um período em países da Europa ou da América do Norte, por exemplo, não é fácil. Muitas intercambistas voltam com mais medo da violência e dos assaltos do que quando partiram daqui; reclamam muito dos preços, pois se acostumaram a ter maior poder de compra com menor quantidade de dinheiro; reclamam dos transportes – não é novidade pra ninguém que a qualidade dos transportes públicos no nosso país é deficiente; reclamam da desordem: depois de se acostumar com uma população menos enérgica que a nossa, o barulho, a confusão, as filas e o “jeitinho brasileiro” tomam uma dimensão maior do que se pensa.
  • A saudade das viagens: intercambistas viajam muito. Os motivos são diversos: querem conhecer o país de destino (ou os países vizinhos) enquanto têm a oportunidade, conseguem fazer viagens a baixo custo (algo que é difícil por aqui), conhecem vários lugares em uma mesma viagem, conhecem dezenas de pessoas por viagem. Quando voltam ao Brasil, essa realidade muda. Viajar é mais caro, as nacionalidades não se diversificam, e a freqüência cai absurdamente. A saudade das viagens e a vontade de conhecer o mundo só aumentam.
  • A sensação de “eu mudei”: é unânime - todas as pessoas que fazem um intercâmbio voltam diferentes. Essa mudança é perceptível tanto pelos parentes e amigos, e ainda mais pelo intercambista. Ganha-se em experiências, em independência, em “se virar sozinho”, vivência em um novo idioma ou aprimoramento daquele que já se falava, enfim, uma infinitude de ganhos. Enquanto você criou uma grande bagagem cultural e colecionou experiências, sua família e amigos, mesmo que muito felizes por você, continuaram na rotina de sempre. Muitos relatos aos psicólogos e psicanalistas retornam a esse ponto: é um crescimento acelerado vivido pelo intercambista e as pessoas ao seu redor não o acompanharam, e já não agüentam mais te ouvir falar das mil e uma aventuras que você teve e eles não.
  • “Voltei a ser comum”: quando você mora fora, você é novidade. É estrangeiro, tem visual diferente, costumes diferentes, fala uma língua diferente. Você é visto como alguém especial e a maioria das pessoas gosta dessa sensação. E ao mesmo tempo, todos do Brasil declaram muita saudade de você, dizem que você faz falta, dizem pra você voltar logo, o que aumenta a sensação de: eu sou especial. Quando retorna, você volta a ser comum. Todo mundo é brasileiro, a saudade que os amigos e parentes sentiam de você é encerrada e muita gente sente falta de se sentir “único e especial”.

Dicas para lidar com a depressão pós-intercâmbio

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Ao voltar do intercâmbio, você precisa se readaptar, quer queira quer não. Por mais que você sinta saudades do país em que viveu, que ele seja para você como uma segunda casa, a maioria das pessoas precisa ficar no Brasil para estudar, para trabalhar, por causa da família.

Então, para aprender a lidar melhor com a síndrome do regresso, o E-konomista fez uma lista de dicas que vão te ajudar a gerir melhor essa sensação e aproveitar o máximo do que você aprendeu no exterior aqui dentro do país.

1. Veja filmes

Para matar as saudades dos locais onde visitou, vale ver filmes que foram encenados nesses lugares. Você verá os locais com uma nostalgia diferente, com uma sensação de “eu estive ali!”, que traz boas lembranças. Se você visitou Londres, veja filmes como “Um Lugar Chamado Notting Hill” ou “Match Point – Ponto Final”, se foi a Barcelona, uma boa indicação é ver “Vick, Christina, Barcelona”, se foi a Paris, “Meia Noite em Paris” ou “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” são boas pedidas, etc.

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2. Leia livros

Da mesma forma que os filmes, os livros te transportam para os locais onde você esteve. Existem livros que se passam nas mais diversas cidades do mundo e garantem uma imersão imediata no local. Para matar a saudade de Nova York: Inside Girl; de Paris: The Da Vince Code; da Itália: Todos os Dias na Toscana etc.

3. Compartilhe suas experiências

Avise a todos quando você chegar: eu tenho muito para contar e quero compartilhar com todo mundo! Já ouviu falar que a melhor cura para uma doença é assumi-la? Pois assuma a sua depressão pós-intercâmbio e fale das suas experiências com amigos e família, deixá-las engasgadas só para você vai tornar mais difícil de digerir a saudade. Crie um blog, poste nas redes sociais, faça o #TBT, e torne as lembranças algo agradável e não sofrido. 

4. Torne-se um turista na sua cidade e Estado

Sabe aquela vontade de explorar que você tinha ao viver na sua cidade do exterior? Que tal aplicá-la à sua cidade aqui no Brasil? Com certeza tem inúmeras áreas da sua cidade que você não conhece e que reservam surpresas agradáveis! E cidades próximas às suas que podem ser baratas para viajar e ter muitas vantagens em conhecer. Coloque seu espírito de turista no “mode on” e desvende o seu local como um estrangeiro, vai lhe fazer bem. E pode ter certeza que não é só você que conhece o mundo mas não conhece o Brasil.

5. Mantenha contato com seus amigos estrangeiros

Não deixe as amizades feitas no intercâmbio morrerem por falta de contato. Só essas pessoas viveram o mesmo que você, com a mesma intensidade. Elas são as pessoas ideais para ouvir suas saudades dos momentos vividos. Além de manter uma amizade com alguém bem diferente do seu cotidiano. Pergunte como vai, como vão as coisas depois do intercâmbio, os planos para o futuro, marquem de tentar se encontrar. Você sabia que o brasileiro é o que mais faz amigos durantes as suas experiências em outros países?

6. Dê tempo ao tempo

Uma hora, você vai se readaptar. Pode demorar um pouco mais do que o esperado, mas a sensação de “é bom estar em casa” vai voltar pra você. Evite entrar de cara nos estudos ou no trabalho com intensidade voraz porque isso irá ser um contraste muito grande com a vida cheia de estímulos positivos que você teve no exterior. Vai com calma, voltar do intercâmbio pode ser algo não sofrido se você conseguir gerir bem os seus sentimentos.

7. Continue viajando

Por mais que não dê para estar em um local completamente diferente uma vez por mês, a melhor dica para curar da síndrome do regresso é continuar viajando. Procure destinos diferentes, faça sua economia, invista seu tempo e dinheiro nisso. Tornar-se um viajante é das melhores recompensas de quem faz um intercâmbio. Não há mais medo de enfrentar o mundo e conhecer tudo o que ele tem pra oferecer. Planeje-se, vá com amigos, com família, com namorado(a) ou sozinho, mas nunca mais deixe de viajar. Mesmo com a moeda desvolarizada, dá para fazer uma poupança para viajar.

Quando voltar já não faz mais parte dos planos

Para algumas pessoas, e um número considerável delas, a síndrome do regresso se torna algo tão forte, que o único desejo delas é voltar pro país do intercâmbio ou para um outro país estrangeiro. A falta de readaptação ao Brasil faz com que muitos brasileiros comecem a pensar “eu não sou daqui” e procure meios de imigrar. 

Muitos tentam (até conseguir) uma vaga de emprego no estrangeiro, buscam prosseguir com os estudos, tentam projetos que os ligue a um outro país. É comum ouvir estrangeiros dizendo: fui, me apaixonei pelo país, retornei ao Brasil e não me senti em casa, por isso voltei. Isso indica que a crise do regresso é algo mais forte do que uma simples saudade, e que nem todos se readaptam. 

Vivenciar algo que sempre se desejou no intercâmbio e ver esse laço cortado em seu regresso, faz com que muitos brasileiros façam as malas, busquem um destino no exterior e só voltem ao Brasil à passeio.

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Ana Luiza Fernandes Ana Luiza Fernandes

Ana Luiza Fernandes é brasileira, natural de Minas Gerais, formada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo e hoje cursa Mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto, Portugal. Possui trabalhos na área de Jornalismo Cultural, Fotografia, Documentário e Assessoria de Imprensa e é apaixonada pela profissão desde criança.

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